Humberto   Bley   Menezes

Prosas e Versos

Textos


 O HOMEM QUE CHUPAVA LARANJAS

 

 

 

Havia um acordo. Sei que poderia ser indiciado se não cumprisse. No entanto, em face do tempo transcorrido, fui aos poucos deixando passar certos itens daquela combinação. O tempo passa, nada acontece e nós mesmos vamos aos poucos esquecendo aquilo que na verdade desejávamos esquecer. Fui chamado. Deixei de ir à igreja como tinha prometido. Seria isto?

O indiciamento me transtorna. Procuro o motivo. Nada se apresenta como passível de processo. No entanto ele existe.

A correspondência me intima a comparecer ao tribunal. Assim faço. Desesperado, procuro pelos acusadores. Vara tal, nada consta, vara e qual, aqui não está. É criminal? Civil? Não sei. Deve estar no distribuidor. Este processo está arquivado. Alívio.

Dias depois, pela manhã antes de terminar de fazer a barba, à porta batem dois oficiais de justiça. O senhor é o senhor? Sim. Aqui está. Novamente um papel que treme nas mãos. Comparecer onde? Perante o juiz. Onde? Na justiça. Estarei lá.

Vou mais cedo. Até os elevadores estão vazios. Terceira vara. Com licença. Recebi este papel, é aqui?

Estamos em recesso momentâneo. Hora do café. Senhores de cabelos brancos, bem vestidos, um pouco obesos se refaziam em uma mesa de pães e sucos. Espero. Eles me ignoram e falam sobre promoções e aposentadorias. Um deles, por sinal o mais velho, me observa todo o tempo. Uma vontade imensa de urinar me angustia. Depois de algum tempo se abraçam e deixam o recinto. Passam por mim como se lá não estivesse. Fico desesperado, ninguém me dá atenção. Todos se esquivam e desaparecem nos longos corredores. Só, na sala vazia, o desespero toma conta, choro. O juiz idoso aparece e solicita explicações. Como conseguiu chegar até aqui? Esta sala é privativa. Justamente na hora do lanche? Isto não será nada bom para o seu processo. De que se trata? Vamos se explique. Não sei. Este papel... Ora, meu rapaz, deixa disso. Este é um caso demorado, estamos nas preliminares. Esqueça. Vamos ouvi-lo um dia, sossegue. A urina correu quente pelas pernas. Aliviado corri pelos corredores, pavimentos e escadas, em direção a rua. Corria e chorava. Nada de grave, deve ser algum engano. O vento secou as calças e cheguei finalmente em meu quartinho. A pensão humilde esconde na sua simplicidade o aconchego do lar. No fundo do corredor o banheiro. Muita água para me livrar do odor de urina e lavar a alma aliviada. O juiz ancião me tranqüilizou. Quem sabe é um engano? Preciso tomar um café reforçado, faz tempo que não me alimento direito. Comer e partir para o trabalho.

As crianças no colégio na certa me farão esquecer deste pesadelo. Primeira aula às dez e meia. Ta bom, há tempo. Vou ficar mais um pouco nesta água morna, deliciosa. Como pude esquecer de comparecer ao processo? Agora é esta perseguição. Compromisso com o bispo. Será este o motivo? Comungar todo domingo. Não custaria nada.

Batidas na porta. Que droga, um dia ainda terei um banheiro só para mim. Pronto. O senhor é o senhor? Sim. Assine aqui. Não deixe de comparecer. Uma cólica atroz se apossou de mim, diarréia, vômitos e uma vontade imensa de morrer. Outro banho. E aquele novo papel brilhando no criado mudo.

Desta vez será diferente. Vestirei meu melhor terno e meu sapato de couro alemão. Vou lá como um lorde, igual àqueles servidores da justiça que gostam de café, sucos e bolinhos. Terão que dar explicações.

 

Gente nova na pensão. A senhoria me informa tratar-se de um figurão. Um senhor idoso da alta corte de justiça. Disse tratar-se de um caso de investigação. Caso de segurança nacional.  Será que falei demais em minhas aulas? As crianças podem ter denunciado qualquer coisa, certamente um mal entendido. Estou certo que cumpro fielmente a cartilha do Estado.

No refeitório o velhinho sussurrava com a senhoria, sentado à mesa do café. Silenciou quando entrei. Senhor juiz, vai ficar conosco? O velho simplesmente mexeu a cabeça afirmativamente e sem me olhar disse baixinho: não sou juiz. E mais não disse.

Entrei no tribunal decidido a resolver minha questão. Recesso forense. Não havia expediente. Juizes novamente descansando. No entanto andando pelos corredores vazios cheguei à parte de traz do prédio. Grande movimento no pequeno pátio em frente da velha construção que abrigava o juiz de plantão. Muitos homens desalinhados com pastas pretas nas mãos conversavam em voz alta num cenário que mais parecia uma arena de touros. Quando surgi na porta muitos deles se dirigiram a mim. Advogado? Precisa de advogado? Sem custo. Só cobro se vencer a causa. Senhor, não pode entrar aí no velho fórum sem defesa. Será massacrado. Não preciso de advogado. Nem sei do que estou sendo acusado. Pior ainda, assine aqui esta procuração. Agarravam-me às dezenas.

Quando finalmente consegui deles me desvencilhar, não sem muito esforço, fechei a porta do velho fórum com tanta força que todos que lá estavam se voltaram para me receber. Sem jeito caminhei por entre pessoas mal vestidas e visivelmente desprovidas de recurso que certamente procuravam no plantão alivio para os seus problemas na justiça. Protocolou? Naquela sala. Eu nem sabia que tinha que protocolar quanto mais o que protocolar, mas fui sendo levado para uma sala ao lado do salão principal. Sentado atrás de uma escrivaninha antiga e mal conservada cercado por uma montanha de processos estava o velho servidor, agora meu companheiro de moradia. O senhor? O papel, onde esta o papel? Aqui. Um carimbo enorme encharcado de tinta praticamente inutilizou o documento. Volte na data indicada. Difícil decifrar a data nos borrões que carreguei com cuidado por entre as pessoas que se apertavam na sala, pois quando entrei dezenas de pessoas me seguiram tornando a sala superlotada, ruidosa e mal cheirosa com aquele odor de fumaça que caracteriza pessoas que se aquecem em fogo de lenha. O velho me repreendeu: isto não é nada positivo para o seu processo. Deveria fechar a porta. Desculpe Excelência. Não sou excelência.

 

 

O velhinho se apossou da minha tranqüilidade. Quando chegava a noite, depois de um dia exaustivo de trabalho, o encontrava sentado à porta da pensão fumando charuto.  Ao lado da cadeira uma lagoa de saliva. Durante o dia um saco de laranjas, as quais, com um canivete longo e afiado, descascava, alimentando ao hábito de sorver, cuspir, e arremessar bagaços à distância.  Sorvia duas chupadas e arremessava os meios bagaços na distância de um tambor à beira da calçada. Parecia em êxtase submetido ao hábito. Dúzias de laranjas lhe eram entregues todas as manhãs. Muitos dos passantes, aqueles que acordavam cedo, olhavam com reprovação à ostensiva apropriação da calçada e a obstrução da entrada da nossa hospedaria.

O processo seguiria seu curso. Eu seguiria meu cotidiano angustiado. A quem recorrer? Como viver assim atormentado? Seria eterno esse meu destino. A quem me explicar? O que explicar? A semana começa no domingo. Minhas esperanças se renovam.

Um bagaço de laranja chupada estatelou-se no meu sapato de couro alemão logo na chegada da missa dominical. Será possível? Está exorbitando. Senhoria não percebe o abuso?  Resignado sigo em direção ao meu reduto. A porta do quarto aberta.  Coisas ao chão, meu quadro de Marx descaído e profanado, o de Cristo intocável, no mesmo lugar. Mamãe sorria como sempre na cabeceira. A outra porta-retrato ao lado sem fotografia, a espera da imagem, que persigo, meu pai.

De baixo do travesseiro meu camisolão sai assustado enrolado no gato, meu companheiro, assustado com toda a desarmonia de que foi vítima. Que querem os invasores?  Será que a maionese, o frango assado e o macarrão confortarão meu espírito? O vinho no almoço certamente amortecerá meu espírito Racionalizar acontecimentos. Melhor deixar para a madrugada que certamente será terrível.

O domingo passou, apesar de tudo. Arrumar o quarto não me foi extenuante. O almoço transcorreu em paz. O vinho desce fácil e em profusão. A sesta acabou na manhã seguinte. Olhe a hora. Está doente? Não vai trabalhar? Bom dia!

Deus ajuda quem cedo madruga. O café te espera. Obrigado senhora. Desculpe, Obrigado. Café quente, torradas com manteiga, queijo de leite de cabra, suco de tamarindos. Certa paz, sensação de conforto e segurança. Esquecer tudo. Certamente um sonho mal.

Não esqueça do tribunal. Compareça rapaz. O processo exige. Até lá.

O velhinho passou por mim como se fora ave de mau agouro.

Na porta da cozinha a senhoria esfregava as mãos no avental. Procurei seu olhar como cúmplice e refúgio, ela apenas baixou a cabeça resignada e eu refuguei a salada de frutas. Deveria seguir os caminhos da segunda-feira, sem esquecer de antes deixar alimento e água na soleira da porta para o bichano.Guardião de nada, refém do seu silêncio e da sua preguiça. Louco felino que bagunçou todo meu quarto atrás de um rato e me fez desconfiar de invasão.

 

 

Quando cheguei encontrei o bichano imóvel. Ao lado água e sardinhas em conserva, suculentas e sem desfrute. Sabotagem certamente. Assassinato. O bichano foi estrangulado. Muita culpa. Se as forças que me perseguem assassinam, que será de mim, um pobre professor processado, diante de tanto poder. A senhoria argumenta que se o deixei amarrado, possivelmente morreu enforcado. Concordo, acho que sim. Afinal, era um estorvo. Assim como todos os bichos. Estes seres servem apenas ao ego dos humanos. Não existe animal feliz convivendo com gente. Os gatos têm tendência ao suicídio. Penso nele como penso no processo. Amanha será o dia. Hoje, no jantar o velhinho sentou à mesa contígua à minha. Nada comeu, alem das três laranjas que descascou com parcimônia e olhares investigativos.  Quando estava já um pouco tonto pelo vinho o velhinho se aproximou. Boa noite meu filho. Eu estava neste momento sorvendo a terceira taça de vinho e desejando aquelas ancas da senhoria que passeavam pelo salão. Amanhã terás a solução de seu caso. Senhor, meus nervos não suportam mais. O vinho se encarregou de desprezar o hálito de laranjas, A senhoria passeava pelo salão nas tarefas do jantar. O bichano continuava na porta. Morto. Entrar no quarto presumia passar por cima. Quedei-me no corredor. Passo por cima? Providencio a remoção?

Resolvo tomar sorvete na praça. A moça me aguardava. Desculpem, não havia apresentado a moça. Linda moça, prendada e gostosa moça, filha do proprietário do colégio no qual trabalho. Família de tradição. Milhares de cabeça de gado no pasto e uma educação à francesa. Passear na pracinha. Papai faz gosto. Bom moço. Inteligente, respeitador. Estudioso. De muito caráter.  Ela finge indiferença. De repente, por acaso as mãos se entrelaçam com mais intensidade e tomam rumos fortuitos durante a caminhada. Descuidadamente encostam-se a partes mais intimas, ora de um ora de outro. Ela sorri de lado. Eu saboreio o disfarce. Neste momento percebo que o compromisso está concretizado. Apenas uma voltinha na praça com minha futura esposa. Assim parece. O papai, pelos olhos da empregada pode garantir a decência deste pretendente vigiando o passeio, sentada no banco de madeira.  Não fosse o processo, tudo estaria perfeito.

O velhinho e seu estoque de laranja também estiveram presentes ao passeio. Foi testemunha quando sem vergonha encostei e busquei nas coxas da moça despertar desejos. Acho que ele percebeu seu rubor com sorriso atravessado. Apesar da ansiedade pelo resultado do processo o dia findou. A senhoria desligou os ventiladores. As janelas se cerraram, uma ou outra cadeira foi arrastada e aos poucos, o silencio se fez presente. O gato morto permanecia na porta. O velhinho sumiu da minha cabeça. Eu sem meus pijamas, só de cuecas esperava deitado. Dois anos de pensão ainda não conseguira estabelecer um julgamento concreto do comportamento da minha senhoria. A primeira vez foi um susto. No meio da noite a porta de meu quarto se abre e percebo seu vulto, iluminado apenas por uma réstia de lua, desfazer-se da camisola e nuazinha embrenhar-se sob meus cobertores.  Refestelar-se, quente e sôfrega. Ao fim, levanta-se, ajeita os cabelos compridos e soltos. Rapidamente, vai até a porta, espia e sai nua, com a camisola nas mãos. Saltitando desaparece no corredor. No dia seguinte como se nada houvesse acontecido sem sequer dizer bom dia, segue na rotina de servir o café dos hóspedes. Cabelos presos, vestida como de costume com roupas muito discretas e fechadas. Só eu sei o que escondem estas roupas. Depois da primeira vez, estes presentes aconteciam em dias aleatórios. Dois, três, até quatro dias seguidos. Às vezes passava muito tempo sem uma visita noturna. Quinze vinte dias. Quando menos esperava lá estava ela, minha amazona a cavalgar iluminada apenas por um fio de lua que rompia as frestas da cortina. Hoje estou na expectativa de que virá. Aliás, estou mesmo precisando. O passeio com a moça foi excitante. Está ficando tarde e nada da porta abrir. Dez dias sem recebê-la. Assim a noite passa e pela manhã estarei acabado com a falta de sono. Não virá. Preciso me fixar no processo. Amanhã é o dia. Serei condenado? Apreciarão o meu caso?  Dúvidas, sono, medo, desejo, tudo misturado. A moça, o velho, a empregada do pai da moça, casamento, o gato morto na porta do quarto, o processo, o sono chegando.

A porta se abre e a luz do corredor anuncia a chegada de uma despudorada senhoria.

Amanhã me importo com o processo.

 

 

Muito cedo já estava a postos no refeitório para o café da manhã. Pela primeira vez a senhoria não servia os hóspedes. Depois de uma espetacular noite de amor se deixou ficar em minha cama. Deixei-a dormindo. Linda espalhada por entre os lençóis. Saí sem barulhos. Peguei o gato pelo rabo e lancei-o pela janela. Enfim desceu boiando pelo córrego que passa atrás da casa. A mocinha que serve as mesas me olhava com um olhar de cumplicidade e malícia. Certamente sabia onde estava a patroa. Virei uma xícara de café e sai. Enfim iria definir minha situação. O processo estaria pronto para um veredicto.

Caminhando na rua quase deserta e fria uma paz inexplicável se apossou de mim. Não mais sentia medo. Tudo estava consumado. Restava aceitar fosse o que fosse.

Ao contrário do que seria de se esperar o tribunal estava vazio. Algumas pessoas se incumbiam de passar vassouras pelos corredores. Na parte mais antiga o pátio a céu aberto recebia um vento intenso, gelado. Passei apressado pelo pequeno jardim mal cuidado. Abrindo a porta adentrei ao prédio e dali à sala do tribunal. Sentados atrás de enorme mesa, em plano elevado, os juizes já estavam a postos. Tão logo sentei o presidente adentrou ao recinto. Comecemos. O senhor se identifique. Sou eu mesmo. Aquele que durante os últimos meses se viu envolvido neste processo. Espero estar apto para receber a sentença neste ato. O senhor deve permanecer calado. O dia é frio além de ser feriado o que se justifica pelo sigilo do processo. O término do prazo nos obriga a aqui comparecer. Senhor relator, relate. Pelas observações e investigações ele está apto, disse o velhinho das laranjas. O dossiê completo já é de conhecimento dos senhores. Quem aprova permaneça como se encontra. Aprovado. A partir deste momento com a aposentadoria do atual Observador o senhor está nomeado para o cargo vitalício de Observador Geral. Deverá permanecer no mesmo nível de colocação social e informar tudo o que possa parecer consenso na sociedade que possa implicar em discordância com o sistema. Suas despesas estarão cobertas integralmente e vitaliciamente desde que sejam compatíveis com o nível social ao qual irás viver e observar. O resto está no manual.  Este tribunal, a pedido do Estado se desincumbe da missão de indicar o novo Observador Geral. Vamos considerar que esteja de acordo e que o juramento esteja implícito na próxima resposta. Aceita o cargo?

A cabeça girava como um carrossel. Cavalinhos brancos rodeavam, subiam e desciam sem montaria. O velhinho rodava sentado à plataforma do equipamento descascando e chupando laranjas. Sorria com a certeza da aposentadoria. Iria a partir de agora chupar suas laranjas à beira de um lago nas montanhas. Em cinqüenta anos de tribunal, enfim, tinha executado um único trabalho. A indicação de seu substituto. Ao seu lado, montado em um dos cavalinhos o pai da moça, o dono do colégio, meu possível futuro sogro, rodava gargalhando com um maço de notas de dinheiro nas mãos. A moça passeava por entre os brinquedos com sua inseparável dama de companhia. A senhoria observava a tudo da tenda de tiro ao alvo. A chuva caiu forte e nenhum deles se incomodou. Permaneceram como estavam indiferentes à tormenta. Os juizes corriam da tormenta  protegendo a cabeça com a beca. Carregavam as notas de dinheiro Um palhaço encharcado passou devagar pelo pátio puxando por uma cordinha um cachorro de pano. Pula Violeta. O gato passou em disparada, rosnando esganiçado, arrastando a cordinha pelo pescoço. Olhava-me furioso.

Ouvi minha própria voz:

Aceito.

Encerrada a sessão. Bom feriado para todos. 

 

 

Mal acredito que se passaram três anos dos acontecimentos narrados. O tempo nos envolve de tal maneira que ao dar-nos conta do presente levamos um susto pelo espaço de tempo que transcorreu aparentemente tão veloz. Na verdade, no meu caso, este tempo foi preenchido com muitos acontecimentos. Ao sair da hospedaria já na qualidade de Observador Geral fui morar na capital. Deixei para trás todos os meus pertences, inclusive os dois porta retratos; um com o retrato de minha mãe e outro agora com o retrato do velhinho, o das laranjas.Como era de se esperar, de certa forma como imposição do sistema, que me observou, julgou e escolheu, casei-me com a moça. Moro em uma casa confortável, bairro de classe média, uma vez que é nesta faixa social que devo atuar como Observador. O envelope com o salário chega regularmente todos os meses com uma importância muito além do que minhas modestas pretensões necessitam. Nestes últimos meses resido sozinho, pois o destino me propiciou o dissabor de perder a moça e meu primeiro filho. Problemas no parto. A depressão durou alguns doloridos meses, mas ao resolver rever minha cidade e o ambiente no qual vivi o pesadelo do processo, de certa forma abri espaço para uma tentativa de recomeço.

Na pensão encontrei gente desconhecida. A senhoria se quedou em desespero logo após minha partida. Vendeu a hospedaria e saiu da cidade na carona de um caixeiro viajante. Correm estórias de que mais tarde montou uma casa de tolerância às margens de uma rodovia. Este meu regresso de certa forma perdeu o sentido, pois me embalava o sonho de retomar às esperas informais das noites de outrora.

Sobre o velhinho, soube que se transferiu para a montanha.  Mudou para uma cabana confortável às margens de um lago. Saiu para pescar e desapareceu nas águas. Não mais foi encontrado. Apenas algumas laranjas chegaram às margens trazidas pelo vai e vem das águas.

Neste momento me encontro sentado no banco da pracinha, aquele mesmo que muitas vezes sentei para namorar a moça. Uma chuvinha fina umedece as pedras das calçadas. A noite se aproxima e na torre da igreja o carrilhão entoa a hora da Ave Maria. Vejo a dama de companhia adentrar a igreja com a cabeça coberta por um véu negro. Lembro dos passeios com a moça, minha angústia pelo processo, nas crianças da escola, meus alunos aos quais abandonei, das noites de sobressaltos, do meu louco gato morto. Choro o passado e o presente. 
Recomponho-me, ajeito o lenço no bolso do paletó, pego na sacola ao lado uma das muitas laranjas, empunho meu canivete afiado e começo a descascar.

 

 

                                                   FIM

 

 

 

Humberto Bley Menezes
Enviado por Humberto Bley Menezes em 14/02/2008
Alterado em 13/01/2009


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