Humberto   Bley   Menezes

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EU E O RIO

Nasci a poucos metros de um rio. Se o fato tiver qualquer importância não sei se descobri qual seja. Embora em todas as horas, pela vida afora, ouça o ruído úmido corrente e imutável, das águas a caminho de seu destino, além. De alguma forma, meu trajeto ligou-se ao dele. Preso nos barrancos de sua calha cujo traçado margeia a cidade, inconstante e indiferente, às vezes expondo a amplidão de sua revolta nas enchentes sem fim, para derramar desassossegos e acordar os ingênuos e os conformados.
O mar nos espera impaciente, afastando-se na maré baixa, receptivo na maré alta. Um tapete estendido na areia. O sol e a lua observam solenemente a água barrenta se misturar ao oceano, despir-se de sua identidade, dissolvendo um pouco a cumplicidade da nossa agonia. Alegrias e tristezas adquiridas no longo percurso do planalto ao mar.
Ao sabor das marés seguimos, o rio e eu. Por vezes calmaria por vezes tormenta, divididos em partículas, nos misturando ao todo, às vezes limpo, às vezes turvo. Somos enfim, um painel de acontecimentos imprevisíveis e inesperados despejados no oceano. Náufragos na busca do sentido da caminhada, impregnados de preceitos, preconceitos e utopias que já não nos servem mais.
Humberto Bley Menezes
Enviado por Humberto Bley Menezes em 20/01/2020
Alterado em 21/02/2020


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