Humberto   Bley   Menezes

Prosas e Versos

Textos


A bengala do vovô

 

 

"O coração, se pudesse pensar, pararia."

 

 

 

Toc Toc Toc.

Lá vem o vovô fazendo barulho com sua bengala e seu han... han... han...

Parece que seu caminhar é sem direção, mas não é. Eu sei, o conheço, ele mora no meu coração desde quando eu era bem pequeno. Seus braços eram abrigos, prontos a consolar e a perdoar as minhas peraltices.

Vovô parece cansado e o pigarro faz barulho que ele não percebe, pois, se percebesse evitaria. Vovô é muito bom. A vovó vive brigando, chama sua atenção. Ele balança a cabeça, dá de ombros, sorri e pisca para mim com cara de moleque. Este meu vovô é demais. Está sempre pronto para fazer alguma coisa em casa, apesar de não ter uma perna, conseqüência de um tumor que o atacou quando tinha quarenta e três anos.  Sobe em escadas, troca lâmpadas, conserta tudo que se quebra.  Ele usa uma perna mecânica às vezes. Em casa, agora que pouco sai à rua, usa suas muletas que são mais práticas e não cansam tanto quanto a perna. É muito pesada. Coitado do vovô. Tem um olhar severo, mas eu sei que é só o jeito dele. Na verdade tem um coração bem generoso. Gosta muito de contar estórias de quando era criança, criança pequena, como dizia. E lá vinha ele “quando eu era criança pequena lá na minha terra”, e tome “causos”. Desconfio que muitas das estórias ele fosse inventando na hora, de acordo com o que se passava no momento, ao redor, ou na ocasião.

Gostava de falar de um “Cavaleiro da Esperança” que cruzou o país no comando de 1.200 homens defendendo o direito do povo às reformas políticas e sociais, combatendo as oligarquias. Coluna Prestes como ficou conhecida na história percorreu a pé 25.000 km pelo interior do Brasil. Meu avô tinha dez a doze anos de idade e ficava maravilhado com as façanhas do Cavaleiro da Esperança. Contava as proezas, as batalhas que sempre venciam contra as forças do exército, polícias estaduais, fazendeiros e jagunços. Dizia que naquele tempo nem poderia imaginar que já moço fosse conhecer e conviver com O Velho, como era chamado Luis Carlos Prestes, o mesmo Cavaleiro da Esperança da sua infância. Na verdade eu não compreendia muito bem quando ele enveredava por esse tipo de estória. Pois na época não entendia direito de política e essas coisas, mas me maravilhava a forma empolgada, comovente e apaixonada que ele falava. Cada batalha se desenrolava na minha frente como se real fosse. Vovô era demais. Deveria ter sido artista de teatro. Esta militância política lhe custou algum atrapalho na vida: perseguição, clandestinidade e prisão. Por dois anos freqüentou os porões da ditadura Vargas. Era um moço que estudou em colégio militar e na ocasião freqüentava e Escola Naval. Mas, sobre esta parte contarei em outra ocasião. Em nenhum momento ele se queixou ou se arrependeu de algo, muito ao contrário, era só o assunto aparecer e ele se inflamava novamente em defesa de suas idéias revolucionárias em defesa dos desfavorecidos, contra a injustiça e os poderosos.

Vovô estava um pouco doente nestes dias. Sentia dores na barriga e já não comia como sempre. Na hora do almoço já não mais reclamava do atraso. Ele gostava de horários pré-estabelecidos. Deixava-se ficar na rede com as muletas ao seu lado, no chão, e o olhar fixado no vento. Era verão e a brisa da tarde trazia sensações reconfortantes. Sensações que remetem à tendência de tornar relativo o bem estar. Percorrer caminhos efêmeros e misturar-se ao âmago do existir. Perceber talvez, no que se resume a nossa permanência, no reconhecimento da vida. È quando a calmaria se torna irmã gêmea do turbilhão e a bondade passeia de mãos dadas com o mal. Antagônicas mas fruto do mesmo átomo. Comprimir-se em êxtase, reter o suco do pensamento mais profundo, e quase alcançar a paz.

Acho que foi assim, o braço pendia solto no balançar da rede. O vento beijava suave os poucos cabelos brancos, o par de muletas pousadas no chão não desconfiava que se transformasse em imagem de ontem em minha memória.

Guardo as bengalas que às vezes uso para andar no meu quintal. Não preciso, mas parece que o fato de fazer uso delas me remete a um tempo de máxima segurança quando tudo poderia ser alcançado, pois eu sei que aqueles olhos austeros vigiavam minha trajetória e quando ao final de qualquer peleja na vida, ganhando ou perdendo, eu buscava seu apoio, receberia um afago, cumplicidade que sabia irrestrita.

Qualquer dia conto algumas outras passagens e proezas do vovô. Por hora basta isso para apresentá-lo. Lembrá-lo faz parte do exercício de cultivar o meu próprio eu, de me reciclar, beber da fonte do bem, fundir em pepitas de ouro todos os momentos de amor que pude desfrutar ao seu lado.

 

 

 

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância.

Faço paisagens com o que sinto. 

“Fernando Pessoa”

Humberto Bley Menezes
Enviado por Humberto Bley Menezes em 07/07/2007
Alterado em 07/07/2007


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