Humberto   Bley   Menezes

Prosas e Versos

Textos


ANTES DA LUA CHEIA.

Assim nasci.
Abri meus olhos como se fosse gente.
Assim, chorei numa redoma de cuidados.
Não chorei como devia,
Pois, muito haveria de chorar.
Apenas assumi meu posto na vida.
Situações burguesas
Que embaçam meus olhos.
Suguei do peito e da Nestlé.
Perninhas reticentes escalando conceitos.
Braços ansiosos tentando alcançar o vento.

Temporal, chuva de granizo
Anos dourados,
Nos degraus da evolução pessoal.
O vento frio do sul,
Vento quente do leste.
Cabeça menina sonhando justiça.
Chão quente demais
Para miúdos pés descalços.

Melhor às margens do rio.
Lama gelada, mutucas comparsas
Nas folias e na lama.
Brisa dos fins de tarde,
Gelada como a realidade,
Entupindo a alma de melancolia,
Decifrando a desconhecida saudade.

Um sonho metamórfico,
uma evolução constante,
Uma massa infinita embolando o futuro.
Presságio de maus caminhos.
De tudo errado.
Por muito que acerte,
Ser Quixote na vida,
Sem chance de ser moinho.

Guaraná, gelatina, bolinho da graxa,
Velinhas conforme o tempo.
Catapulta me arremessando
Para mais perto do destino.

Menino filho da angústia,
Fingidor no circo da vida
Perdido em meio à função,
Embalando com destreza
A ilusão do picadeiro,
Montado no que mandava o coração.

Se necessário decifrar motivos,
Talvez haja uma resposta
No útero angustiado,
No sêmen inconformado,
A eles juntado o medo.
Fui içado do futuro; um ser inacabado.

Guri, piá, garoto, moleque,
Contador de pedras,
Catador de elogios,
Colecionador de desfeitas,
Amigo fiel dos sonhos.
Desejos agarrados nas asas da noite,
Riscando a escuridão
No cangote dos morcegos.

Na janela cotovelos plantados,
Observatório discreto.
Refletindo nos paralelepípedos,
Riscados pelas ferraduras,
A luz dos desejos mais secretos.
Violação dos limites do improvável.

Bondes, lotações, burburinho,
Pão doce, refrigerante.
Saias plissadas e meias três quartos.
Fêmeas cruzando as primeiras pernas,
Fuxicos e risadas escondidas,
Espinhas no rosto corado,
Figurinhas no jogo de bafo.
Desejos batendo na porta.
O menino empinando raia,
Empinando o sexo,
Empinando o ego, misturando o sonho,
Domando a alma.

Pirralho em meio ao vulgo,
Percorrendo a estrada do destino.
Anos passando, terra batida
Pelos passantes do tempo,
Barro amassado pelo destino.
Sangue, suor e poeira,
Cobrindo as pegadas de gente,
Bichos, estórias.
Contos e poemas que a chuva lava e leva
Capítulo a capítulo,
Pelos sulcos da terra,
Ziguezagueando no destino
Das artérias esclerosadas.
Percorrendo o destino antes da lua cheia.
Antes do ponto final.

Humberto Bley Menezes
Enviado por Humberto Bley Menezes em 15/11/2008


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